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Como Aprendi a Falar Inglês Sozinho

Autodidatas. Como vivem? De que se alimentam?

Minhas amizades do Brasil e até falantes nativos de inglês ficam surpresos quando digo que aprendi inglês sozinho. Por óbvio, uma pergunta que me fazem frequentemente é: “como foi que aprendeu sozinho?”.

Penso que a vontade em aprender inglês ou qualquer outra língua apareça para muitos através de formas similares: ouviu pessoas conversando em outra língua, assistiu um filme sem legendas e ficou motivado em saber o que estavam falando, vontade de interagir com pessoas de outros países e culturas e mais.

Antes de descrever resumidamente a minha trajetória autodidata com a língua inglesa, quero desvendar alguns mitos:

“Falar inglês é coisa pra rico que estudou em escolas particulares (de preferência bilíngues)”.

A verdade: Estudar em uma escola bilíngue é um tremendo impulso, mas a constância no aprendizado advém de algumas qualidades que todos podem ter sem custo algum: curiosidade e constância.

“Nunca morei fora, portanto nunca vou pegar proficiência”.

A verdade: O que você pode me dizer dos brasileiros que vão para outros países a fim de continuar somente imersos na cultura brasileira, sem qualquer conexão com a sociedade do país em que estão?

“Na minha cidade poucos ou ninguém fala inglês”.

A verdade: E a internet? Como vai? Já deu uma olhada nos tandem ou grupos de conversação das universidades ou faculdades de sua cidade? Encontros de couchsurfing também servem.

“Somente crianças podem aprender inglês. Depois é impossível ou difícil”.

A verdade: Aprendi inglês sozinho depois dos 20 anos de idade. Existem estudos que mostram que as crianças tendem a aprender línguas (e qualquer outra habilidade) com mais facilidade em virtude de uma série de razões. No entanto, isto não significa que com esforço diário não aprenderá inglês.

Feito isto, vamos lá.


Prólogo: O Background

Durante o ensino fundamental e ensino médio, ficava observando alguns amigos e colegas que tinham aulas de inglês (não me refiro para as aulas obrigatórias), seja na própria escola, seja em lugares como a Cultura Inglesa.

A questão era que os meus pais não tinham dinheiro para bancar cursos de inglês. Também não sabia como começar, já que acreditava que o único caminho era ter aulas de inglês.

Em 2013, a minha rotina na Faculdade de Direito estava um tanto monótona. Era uma sensação que estava fazendo exatamente o que todos faziam, sem apresentar qualquer diferencial ou habilidade útil para o mercado de trabalho. Ficava imaginando como deveria ser legal conversar em diferentes línguas com pessoas de outros países, assistir filmes em inglês e sem legendas, assim como ler livros nesta língua.

Entretanto, aprender inglês continuava sendo o tipo de meta que “deixava para outro dia”. O famoso “adiamento indefinido”. E as desculpas para não aprender inglês eram igualmente clássicas: “o complicado é que tenho que trabalhar para pagar a universidade e não tenho dinheiro para aulas”.

E quem disse que precisava de aulas?

Pois bem. Não tinha consciência disto até 2014.

Primeiros contatos com nativos da língua inglesa e pessoas de outros países

No começo de 2014, um colega da universidade o qual tinha o aprendizado de línguas estrangeiras como hobby, me comentou de um site (na realidade uma verdadeira rede social) de amizades de correspondência ou penpals, algo que apesar de não ser muito popular no Brasil, é muito conhecido em diversos países pelo mundo. Também me disse que conheceu pessoas de vários países através desta rede social.

Desta forma, criei uma conta no site.

Nesta época, me recordo que estava lendo alguns livros sobre a China, porém não conhecia ninguém de lá. Decidi enviar diversas mensagens para usuários chineses com base nos conhecimentos de inglês que possuía naquela época. Para a minha surpresa, muitos deles me responderam que estavam nesta rede social para aprender inglês, bem como conversar com pessoas de outros países.

Após várias trocas de mensagens com algumas amizades que fiz por lá, o resultado foi este:

O primeiro postal que recebi de outro país. Enviado pelo meu colega (que também é advogado) da China.
Alguns presentes da Coreia do Sul enviados por uma amiga sul-coreana.

Conheci pessoas de várias partes do mundo e alguns inclusive já até encontrei pessoalmente, tornando-se grandes amizades.

Fato que me encorajou bastante foi quando comecei a conversar com falantes nativos, especialmente dos Estados Unidos, Canadá e Singapura (lembrando que o inglês é um dos idiomas oficiais deste país asiático). Apesar de na época (isto entre 2014 e 2015), o meu inglês ser algo entre B1 e B2, conseguia me expressar sobre vários assuntos (e aqui a importância de ler notícias).

Meus contatos me corrigiam e me parabenizavam sobre os meus avanços. Receber elogios de alguém que fala inglês nativo era um verdadeiro “empurrão” para continuar treinando mais e mais.

É importante dizer isto porque conheço várias pessoas que passam cinco ou mais anos em escolas de línguas no Brasil e encaram a conversação com nativos a tarefa mais inalcançável de todas.

Estas trocas de mensagens foram apenas uma forma de “destravar” o inglês, meio este que me possibilitou melhorar gradativamente as minhas habilidades de escrita. E este se revelou um método muito bom, porque a vontade de conversar com pessoas de outros países era motivada pela curiosidade em conhecer diferentes culturas.

Portanto, quanto mais curioso ficava, mais surgia a vontade de me comunicar. E como as conversas eram em inglês, comecei a colocar esta língua na minha rotina.

Por sinal, o contato com diversas culturas me ensinou a importância de aprender outras línguas estrangeiras, experiência que já descrevi por aqui.

E como foi destravar as outras habilidades da língua inglesa?

Na minha opinião, aprender uma língua demanda a proficiência em quatro habilidades: leitura, audição, conversação e escrita. Desta maneira, apesar de as minhas habilidades de escrita estarem indo bem pois todos os dias trocava mensagens com nativos da língua inglesa, o mesmo não poderia ser dito das outras habilidades.

Comecei a seguir diversos sites de notícias em inglês no Facebook e ler livros nesta língua. Além disto, como fazia PIBIC (iniciação científica) na universidade, arriscava até a usar artigos acadêmicos em inglês como referência. Na minha monografia foram tantas referências a livros e artigos em inglês que os professores da banca até me parabenizaram pela iniciativa.

E não. Quando lia não ficava traduzindo palavra por palavra. Lia toda a frase pensando em inglês.

Para a audição, comecei a acompanhar somente canais do Youtube e podcasts sobre os meus assuntos favoritos em língua inglesa (inicialmente com legendas e depois sem elas). Depois de um tempo passei a assistir canais de televisão dos Estados Unidos, Canadá, Singapura e as versões inglesas de emissoras alemãs (DW), japonesas (NHK) e chinesas (CCTV).

Escrevia diversos textos os quais ora enviava para as minhas amizades corrigirem, ora verificava em corretores online como o Writing and Improve da Cambridge e o conhecido Grammarly.

Tudo isto que mencionei faz parte do famoso processo de imersão que as pessoas tanto dizem por aí. Isto significa um processo de aplicar o inglês diariamente.

Perceberá que ao longo do tempo você também vai interagir com o inglês de forma bastante natural.

Saindo da zona de conforto: o preparo para o TOEFL iBT

Depois da Escola de Direito, estava muito mais confiante com o inglês. Tinha conhecimentos sólidos da gramática, bom vocabulário, lia, escutava, conversava e escrevia em inglês sem problemas. Porém, isto não era sinônimo de fluência no inglês e tampouco me sentia seguro para um exame de proficiência, como o TOEFL iBT.

Apesar disto, optei fazer o exame e durante a prova, o inglês virou uma língua que aparentemente nunca tinha ouvido na vida.

Não preciso dizer o resto da história.

Alguns anos depois, com mais experiência e maturidade, fiz novamente o TOEFL iBT, tendo me preparado sozinho e conseguindo uma pontuação bastante alta.

Irei dizer mais sobre a experiência neste exame em outro post.

Saindo da zona de conforto mais ainda: viagem ao exterior

Como alguns sabem, gosto da vida acadêmica. Em razão disto, em 2019, fui para a Europa estabelecer e reforçar contatos com professores e pesquisadores de universidades europeias. Aproveitei para encontrar algumas amizades na Europa (e sim, todas estas amizades conheci na internet devido ao meu hobby de aprender línguas estrangeiras).

O meu conhecimento da língua inglesa já me permitia entender e conversar sobre assuntos acadêmicos (o que envolve utilizar um vocabulário mais formal).

A experiência em Portugal, Alemanha e Noruega confirmou que o meu nível de inglês estava muito bom. De fato, muitas amizades e “amizades de amizades” começaram a me procurar para dar aulas de inglês.

O que aprendi com tudo isto?

O mais difícil não é chegar no nível C2. Para mim, a parte mais complicada é começar. Isto decorre porque neste período você não está confiante e pensa que o “fulano de tal” (que embora jamais tenha conversado com um nativo, corrija toda a palavra que você diz) é melhor e mais capaz somente porque fez algum curso de inglês.

Dicas Rápidas:

Use a Internet

Acredito que este conselho recusa maiores descrições.

Gravar resumos em inglês

Durante a Escola de Direito, era bastante comum todos os meus colegas escreverem resumos em cadernos, notebook ou post-its. Contudo, houve um dia em que pensei:

“E se eu gravar um áudio fingindo que estou dando aulas deste assunto que estou resumindo?”.

E foi isto que comecei a fazer.

Dizem que ensinar é a melhor maneira de aprender porque você está utilizando uma série de habilidades ativas que não envolvem somente ouvir e ler (o lado mais passivo do aprendizado).

Mas há uma peculiaridade: costumo gravar os meus áudios em inglês.

Posso dizer que este método me ajuda bastante a melhorar principalmente a oratória no inglês e o poder de síntese.

Não ter medo de usar o inglês..

Acredite, os americanos ou outros falantes nativos de inglês não vão “tirar sarro” se você errar na pronúncia ou se eles não entenderem alguma frase que tenha dito. Na minha experiência, percebo que os falantes nativos (seja em inglês ou qualquer língua) ficam impressionados com alguém tentando falar a língua inglesa. Isto faz com que eles muitas vezes se oferecem em ajudar com algo.

.. e nem do seu sotaque

Sotaques são únicos e caracterizam o lugar que você veio. Há ainda um charme nisto. É por isto que algumas pessoas se interessam tanto em aprender certos sotaques, como o inglês canadense ou britânico, por exemplo.

Use flashcards

Esta dica merece um post separado. Os flashcards são aquele tipo de ferramenta que qualquer pessoa precisa para memorizar palavras e assim aumentar o vocabulário. Na verdade, os flashcards são úteis para fixar qualquer tema e não necessariamente palavras em uma língua estrangeira.

E sugiro desde logo um aplicativo chamado Anki que usa o sistema de repetição espaçada ou spaced repetition system. Este aplicativo usa um algoritmo muito interessante. Após você salvar em baralhos as palavras que deseja memorizar (e as respostas na língua nativa), você irá revisar todas elas.

Não para por aí.

No decorrer da revisão você escolhe se a palavra foi fácil ou difícil de relembrar. Há ainda uma opção de revisar novamente no mesmo ciclo. Este processo faz com que o algoritmo do aplicativo separe as palavras fáceis das difíceis. Assim, revisará aquelas que forem fáceis somente vários dias, semanas, meses ou anos depois. Enquanto isto, as difíceis serão examinadas em um espaço de tempo menor (entendeu o porquê da repetição espaçada?).

Aprender línguas me ensinou que posso ser autodidata e desafiar limites. Existe uma comunidade muito grande de pessoas que desejam ou estão aprendendo línguas estrangeiras neste exato momento.

E você? Já está aprendendo inglês? Já pensou em aprender sozinho?

About Luiz G.

Luiz Guilherme Natalio de Mello is a Brazilian Lawyer and Sociologist working on sustainability/disaster risk reduction topics and the intersection of technology and environmental issues. He speaks English, Portuguese, Spanish, German, and French.

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